• Arquidiocese de Pelotas

Por que não aproveitar o tempo para orar?

A situação de exceção causada pelo coronavírus, faz-nos ver que não somos autossuficientes no que diz respeito à vida. Mais, temos um tempo maior para nós, devido ao confinamento necessário. Por que não o aproveitar para orar mais? Há bem poucas coisas sobre as quais nos enganamos com tanta facilidade como esta: termos tempo para orar. Geralmente, nós não gostamos e tiramos tempo para orar, e, frequentemente experimentamos na oração, o tédio, a desorientação, a repugnância e até mesmo a hostilidade. Neste momento, tudo nos parece mais importante e agradável, e dizemos para nós mesmos: “agora não tenho tempo para orar”, ou, “aquela ocupação é mais urgente agora!”. No entanto, o tempo que não é empregado na oração é geralmente mal gasto com coisas supérfluas. É necessário que nós não deixemos de enganar a nós mesmos e a Deus. É muito melhor confessar claramente: “eu não quero orar”, do que se iludir com tais artimanhas. Isso é fraqueza de espírito! Não devemos ser “fracos” para pôr em prática o que o dever e a necessidade requerem, e nem devemos hesitar se esta prática for difícil e exigir muito esforço. Sem oração, a nossa fé no Criador e Senhor da Vida e da História se definha e a vida de amor e solidariedade aos irmãos atrofia. Não se pode ser humano durante muito tempo sem orar, assim como não é possível viver sem respirar. Mas a oração é de fato tão necessária? Não será a oração uma ocupação própria de pessoas medrosas ou até mesmo “fracas”, que não estão preparadas para a vida? A pessoa humana cada vez mais, e até os cientistas de toda ordem assim o advertem, corre um grande perigo se não tiver uma vida de oração. A própria ciência deixa claro que a pessoa humana que só vive voltada para o exterior, arrastada de uma coisa para a outra, que se comunica, que se move, que age e luta voltada somente para o exterior, acaba consumindo-se e definhando-se como ser humano e divino. É preciso que a vida seja também orientada para o interior, que se renove a partir de suas próprias raízes para por em ação o que é próprio do ser humano e divino. A pessoa humana está se distanciando cada vez mais do centro interior, no qual se estrutura a sua personalidade humana e divina e orienta sua vida: diante do turbilhão de exigências exteriores e do barulho das atividade externas, perde a sua segurança interior, e, por trás de uma aparente auto suficiência, lateja uma angústia cada vez mais ameaçadora. Deus Criador o Senhor da Vida e da História depositou em nós Sua vida. Ela deve ser cuidada, ser desenvolvida, ser realizada a partir do interior – uma vida de oração. Ela é colocada por Deus em nossas mãos, tal como a frágil vida de uma criança nas mãos de sua mãe ou como a vida de uma pessoa doente nas mãos de seu médico. Quem ora cuida da verdade da vida: ela é completa somente em Deus.

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo Metropolitano da Igreja Católica de Pelotas

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