• Arquidiocese de Pelotas

O CHORO DE MADALENA

Há mais tempo, ao ler a aparição de Jesus Ressuscitado à Madalena, como o evangelista João narra no final do seu Evangelho, o choro de Madalena me chamou sempre a atenção. Celebrando, neste ano de 2021, já pela segunda vez, a Semana Santa no contexto pandêmico do COVID19, este choro de Madalena se tornou sensivelmente mais impactante em mim. A interrogação, primeiro, feita pelos anjos, e, depois, pelo próprio Jesus Ressuscitado: “Mulher, por que choras?” é comovente e intrigante ao mesmo tempo. O choro de Madalena tem algo a nos dizer?

Primeiramente é bom trazer presente o contexto, segundo o evangelista João, da aparição de Jesus Ressuscitado. Pois, foi no primeiro dia da semana, ao amanhecer, enquanto ainda estava escuro, que Madalena foi ao túmulo de Jesus Crucificado e viu que a pedra tinha sido removida. Então saiu correndo e foi ao encontro dos apóstolos, Simão Pedro e João, para dar-lhes a notícia que alguém tinha tirado Jesus Crucificado do túmulo e não se sabia onde o teriam posto. Os dois apóstolos correram ao túmulo, constataram que ele estava vazio e voltaram para casa. Entretanto, Madalena havia ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando. E assim, chorando, aproximou-se e inclinou-se para ver dentro do túmulo. Viu então dois anjos, vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus Crucificado, um à cabeceira e outro aos pés. Os anjos perguntaram: “Mulher, por que choras?” Madalena respondeu: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram”. Depois de ter dito isso, ainda chorando, virou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não sabia que era Jesus Ressuscitado. Ele lhe perguntou? “Mulher, por que choras?” Pensando que fosse o jardineiro, Madalena disse: “Senhor, se tu o levaste, diz-me onde o puseste e eu irei buscá-lo”. Então Jesus Ressuscitado falou: “Madalena”! Ela voltou-se e exclamou: “Rabuni!” – “Ó mestre!” Então ela foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor Ressuscitado vitorioso sobre a morte!”

Madalena quis ver Jesus, mas estava chorando, e assim apenas “viu a pedra do túmulo removida”, apenas “viu dentro do túmulo”, apenas “viu dois anjos, vestidos de branco” e apenas “viu o jardineiro”. O choro de Madalena impediu os seus olhos, cheios de lágrimas, de verem além da “pedra”, do “túmulo”, dos “anjos”, do “jardineiro”. Impediu de verem o Jesus Ressuscitado. Afinal, uma experiência muito real: olhos lacrimejantes impedem de ver além. Por isso, também, por duas vezes - pelos anjos e pelo próprio Jesus Ressuscitado, foi interrogada; “Mulher, por que choras?”. Bastou, porém, Jesus Ressuscitado tê-la chamado pelo nome, as lágrimas cessaram e Madalena “viu”, isto é, fez a experiência pessoal de Jesus Ressuscitado – “Ele vive no meio de nós”. E, assim, tornou-se, anunciadora da maior Boa Nova da história da humanidade: “Eu vi o Senhor Ressuscitado vitorioso sobre a morte!”. Com o perdão da palavra, Madalena virou de “chorona” para “anunciadora”.

O choro de Madalena se repete na história. As lágrimas de Madalena são reais nas lágrimas da humanidade diante da morte. E como são reais neste momento histórico da pandemia do COVID19! Porém, a humanidade não pode somente ficar “chorando”. No choro, ela apenas verá “pedras de túmulos removidas”, apenas verá “dentro dos túmulos”, apenas verá “anjos, vestidos de branco”, apenas verá “jardineiros”. Assim, ela também precisa ser interrogada (e a Semana Santa é uma especial ocasião): “Humanidade, por que choras?” Ela também precisa ouvir de Jesus Ressuscitado o nome de “Humanidade – imagem e semelhança de Deus” para “ver”, isto é, fazer a experiência existencial de Jesus Ressuscitado - ”Ele vive no meio de nós”.

Ficar só no “choro”, fica-se na desesperança da morte, e, não se chega à esperança da ressurreição. Ficar só no “choro”, fica-se com um Deus morto e uma humanidade morta, e, não se chega a um Deus vivo e uma humanidade viva. Ficar só no “choro”, fica-se apenas na lamúria, e, não se chega ao anúncio da verdadeira e sempre Boa Nova: “Nós vimos o Senhor Ressuscitado vitorioso sobre a morte”.



Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo Metropolitano da Igreja Católica de Pelotas.

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