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  • Foto do escritorArquidiocese de Pelotas

UM ADOLESCENTE ENTENDENDO A MORTE






Nesta semana celebramos, dia 2 de novembro, o Dia dos Finados. Nós, humanos vivos, lembramos os que nos antecederam na morte. Mesmo que ela já tenha sido uma realidade para eles, existe ainda elos de comunhão conosco. Porém, não é fácil falar da morte! Na medida que nossa idade avança na direção dela, até que conseguimos falar mais facilmente, porque ela torna-se paulatinamente nossa “experiência”. Para o período de nossa infância, adolescência e juventude, isso já não é o caso, embora ela não seja só uma realidade para a idade avançada.

Deparei-me, uns tempos atrás, com uma reflexão de um adolescente, que morreu com a idade de 15 anos, sobre a morte. Trata-se de Carlo Acutis, filho de pais italianos, mas nascido na Inglaterra. Viveu sua infância e adolescência com a família na Itália, em Milão, Roma e Assis. Recentemente foi reconhecido pela Igreja Cristã Católica, como um modelo de vida santa, ao declará-lo bem-aventurado. Com duração de apenas 15 anos, ele viveu santamente, como deixa claro sua mãe, Antônia, referindo-se ao filho: “Eu diria que toda a sua vida foi um encontro diário com Deus. Eu a definiria contra a maré em um tempo como o presente. Carlo viveu sua curta vida da melhor maneira possível. Ele tinha o melhor: pleno, belo e em harmonia com Deus, e deixou um testemunho esplêndido. Meu filho tinha consciência de que a vida não deveria ser desperdiçada com futilidades”.

A mãe, Antônia, continuando seu depoimento em relação ao filho, escreve no livro “O Segredo do meu Filho”, que editou junto com o escritor Paolo Rodari: “Antes de Carlo nascer, eu era longe de qualquer prática da fé. Pessoa incrédula, para quem a morte nada mais é do que um salto no nada. Eu era prisioneira do relativo, que é limitação, fechamento, limite, vínculo, escravidão. Carlo me mostrou como viver o meu tempo em chave de eternidade. Ele me ensinou a sempre olhar para o céu, para o absoluto, e não inclinada para o contingente, para o relativo. Dia após dia, me ajudou a ver o caminho para sair do relativo e me tornar uma peregrina do absoluto que é sinônimo de sobrenatural, mas também graça. E graça não é diferente do reconhecimento desse absoluto. Graça é o absoluto reconhecido”.

Após esse depoimento de aprendizado que como mãe teve do seu filho criança/adolescente, Antônia Acutis revela um texto escrito por seu filho, Carlo, sobre a morte, encontrado na sua página da internet. Um texto profundo, tratando-se de uma existência de apenas 15 anos. Eis o texto: “Então veio o pecado, e com o pecado a morte. Morte, que não existia antes, começou a existir e se tornou a realidade mais terrível da vida de cada pessoa. Todo ser racional reconhece que a morte é ‘o problema’. O homem se esgota procurando novas respostas sobre o que existe ou não após a morte. Na verdade, a morte representa, para cada um de nós, a realidade mais verdadeira, mais autêntica e mais genuína em face da qual não há dúvida de qualquer espécie. O cotidiano então se torna uma luta total contra a morte, que, apesar de ser impossível evitar, tentamos de todas as maneiras dela fugir e torná-la o menos cruel possível. Dia a dia lutamos com a morte, e até contra morte. A morte é, para a maioria das pessoas, o salto para a inexistência, o abismo do depois, do nunca, do sempre, do risco, do perigo, da incerteza, do pôr do sol, do termo, da prestação de contas, do balanço. Tudo isso cria trevas, produz trevas. As pessoas são a humanidade. São bilhões que se sucedem no planeta. São as existências que vêm e vão. São as vidas que acendem e apagam. Um fervilhar de seres que olham, que ouvem, que tocam, que cheiram, que imaginam, que sonham, que desejam, que compreendem, que querem, que escolhem. Essa massa interminável, esse incrível conjunto, essa multidão acotovelada, que luta, que quer e não quer, que pega e larga, que ama e odeia, que serve e comanda, quer ajuda e abandona, que... toda essa ‘gente’ é finalmente iluminada. Iluminada, isto é, libertada, salva, redimida. Por quem? Por Cristo. E até mesmo Jesus, que poderia escolher qualquer forma de redimir a humanidade porque é infinito, escolheu morrer. Então, o que para nós foi o momento mais dramático, a dúvida mais autêntica, o tormento mais angustiante, tornou-se, através de Jesus, elemento de redenção e libertação. Jesus escolheu a morte, a morte mais terrível, mais assassina, mais diabólica. Naquele pedaço de madeira cruzada, espancado da maneira mais infame possível. Ao escolher a morte, Jesus nos devolveu a vida. Ele é o grão de trigo, que, ao morrer, deu muito fruto. A morte, com Jesus, tornou-se luz, força, esperança e confiança. Graças a Jesus, tudo se inverteu, e a morte se tornou ‘vida’. Não é um absurdo, é apenas a mudança provocada por sua morte, porque o grão de trigo caiu, morreu e produziu muito fruto. A morte é universal, como universal é o pecado. A hora da morte é desconhecida. A alma separada toma o lugar da pessoa e exerce suas faculdades espirituais. Do ponto de vista espiritual, é necessário saber-nos e sentir-nos não permanentes nesta terra”.

Eis um adolescente de fé, de apenas 15 anos de vida, entendendo a morte! E que compreensão!

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo Metropolitano da Igreja Católica de Pelotas.

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