• Arquidiocese de Pelotas

SENTIDO: QUAESTIO MAGNA



“Virão dias em que enviarei fome sobre a terra, não fome de pão, nem uma sede de água, mas fome e sede de ouvir a Palavra do Senhor. Errarão de um mar para o outro, vaguearão do norte ao oriente, correrão por toda a parte, buscando a Palavra do Senhor, não a encontrarão. Naqueles dias desfalecerão de sede as virgens, com toda sua beleza, assim como os rapazes [...] Cairão (os idólatras) para nunca mais se levantar” (Am 8, 11-14).

Quantas vezes deparei-me com esses versículos do livro profético de Amós. Sempre me vem a pergunta: São atuais as palavras bíblicas do profeta Amós, anunciadas no séc. 8º AC? Analisando a civilização atual, parece que são vivas.

Existem, hoje, muitos problemas na nossa civilização: A fome, a guerra, o terrorismo, as ditaduras, o desastre ecológico, o desrespeito à mulher, os abusos sexuais, o neoliberalismo globalizado, o desemprego, o atropelo das identidades étnicas, os abusos do avanço tecnológico, o tráfico das drogas, as religiões com cultura de morte, as doenças da AIDS, as sequelas da COVID19... e a lista ainda é enorme. Há, em particular, quem define nosso tempo como uma “ameaça fatal”, apesar dos progressos tecno científicos.

Mas, não lateja, no fundo de todas as questões, uma questão mais crucial, radical e determinante, que é a do sentido? Pois se falta sentido à existência como tal, então tudo o mais: a felicidade pessoal, a convivência social, os valores culturais maiores, a política do bem estar, o cuidado da “Casa Comum”, enfim, a vida em geral, perde seu valor e “sabor”, ficando entregue à dissolução e à morte. Se falta o “para quê”, tudo fenece e cai. O ser humano, diz a Escritura Sagrada, “não vive só de pão”, mas também e, principalmente, “da Palavra de Deus” (cf. Mt 4,4), ou seja, de sentido. Ora, o sentido é a alma da vida. Buscar o sentido sem focá-lo e encontrá-lo é a maldição extrema. Neste contexto estão as palavras do profeta Amós, com as quais iniciamos a nossa reflexão.

Portanto, a crise de sentido não é uma crise entre outras, mas é a crise fundamental, que atravessa todas as outras e as condiciona. Trata-se de uma crise qualitativamente diferente das outras, isso por vários motivos: Primeiro, porque mexe com a vida como um todo e não com uma parte dela. Segundo, porque essa crise não diz respeito apenas ao significado ordinário e direto das coisas, mas, sim, ao sentido último de cada coisa. Em terceiro, porque a crise não concerne a essa ou aquela pessoa, ou a tal e qual categoria social, mas a todos e a cada um dos seres humanos, sem exceção. Cada um tem que se haver com o sentido de sua vida e de sua morte, de seu agir e de seu destino definitivo.

Apesar da sua decantada autonomia, os “grandes valores instituídos na pós modernidade”, estão, eles também, submetidos ao processo niilista: eles perdem o seu valor. Essa é a experiência fundamental da “cultura” imperante. Mas, pergunta-se o pensador, Clodovis Boff: “De onde provém esse pathos, esse sentimento de entropia axiológica e mesmo ontológica?”. E logo ele responde: “Da desvinculação desses ‘valores’ de seu princípio mais originário, por obra dessa mesma ‘cultura’”. Essa “cultura”, achando – supremo engodo! – que Deus lhe roubava sentido e buscando, em contrapartida, fundar a vida em si mesma, acabou por esvaziar a própria vida.

O resultado é então, logicamente, esperado: quando se apaga o sol, vem a escuridão; quando a fonte seca, o rio morre; quando o horizonte desaparece, o viajante perde a direção. A vida, pois, se torna um tédio sem remédio, contendo apenas intervalos de sentido. Sem Deus subsistem ilhas de sentido num mar de absurdo. E, contudo, o mar continua subindo e ameaça hoje submergir também as ilhas.

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo Metropolitano da Igreja Católica de Pelotas.

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